Rodrigovk
Escritor, faz-tudo, editor e pai

Da necessidade de palcos

Percebi que falta pouco menos de 40 dias para meu aniversário de 40 anos, e estava aqui pensando naquele tipo de post, “40 coisas que aprendi aos 40”, e sendo como sou, provavelmente começo com itens de duas linhas e logo estou escrevendo mini dissertações e tentando fazê-las caber em um único item da lista.

Pois bem, de hoje até meu aniversário, 40 mini dissertações sobre o que roda dentro da minha cabeça nessa idade que traz a clássica crise de meia idade (que pra mim começou um pouquinho antes).

As regras (que vou descumprir, pero no mucho):

  • Escrever no máximo meia hora
  • Nada de IA
  • Revisar se sobrar tempo
  • Postar logo, sem período de gaveta (socorro!)

É isso, meus queridos. Nos próximos dias, essa newsletter vai ser um tanto diferente, com posts quase todo dia. Começando agora:


Da necessidade de palco

Estava vendo a apresentaçao da Cia Ethérea, companhia circense da professora de tecido aéreo aqui do espaço, quando, naquelas palavrinhas finais, o André, trapezista e palhaço, me solta um “com tanta profissão, por que fui nascer artista?

Sempre me questiono, de onde vem essa necessidade do palco? Conheço quem se satisfaça com a atenção do próprio cônjuge, talvez um ou dois amigos. E tem gente pra quem meio milhão de seguidores na newsletter não é o suficiente.

Adoro a definição da autora de “The Artist’s Way”, Julia Cameron, para quem artista é aquele cuja vida sofre se não estiver produzindo sua arte.

Concordo muito com a parte do “fazer”, se eu não estou escrevendo, minha cabeça junta caraminholas demais. Se bem que hoje a marcenaria, o Espaço Kabouter, tudo isso ocupe uma bela fatia do meu fazer artístico.

Mas às vezes penso em como parei de tocar saxofone porque não tinha para quem tocar, não conseguia banda, e uma hora cansei de tocar para a parede. E às vezes me sinto assim com a literatura, quando os livros que me tomaram anos de trabalho foram lidos por um total de 0 pessoas.

Meu livro infantil só foi lido por minhas crianças porque era ouvir isso ou dormir, e até ouvir bula de remédio é melhor que cama.

Em vez de transformar isso num muro de lamentações (e mostrar que fazer 40 anos não te livra em quase nada das dores infantis), reflito sobre essa necessidade de palco. Por que fui nascer artista? Por que não nasci igual meu irmão, que nunca teve muita vontade de arte? Ou meus amigos que não passam anos brigando com os próprios sentimentos para criar um romance esquisito que mal se encaixa em gêneros literários?

Ou, o que talvez seja um aspecto interessante de ficar mais velho, é ganhar a capacidade de inverter as perguntas. O que estamos fazendo como sociedade, quando criamos palcos gigantescos para poucas pessoas (que nem merecem tanta atenção) em vez fazer um coreto em cada pracinha nesse mundão virtual?

Se o artista tem a necessidade do palco, onde estão os palcos?

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