Texto #3 de 40 textos aos 40.
Escrevi, de passagem, que meu objetivo último na vida é ser um bom ancestral. Quando um amigo me perguntou sobre, percebi que faltou clareza na minha própria mente, principalmente sobre o que acredito de verdade. Precisei dar uma volta por outras linhas de pensamento que me influenciaram, começando pelo espiritismo. Já disse que escrevo para entender minha própria mente? Algumas vezes, né?
Bora lá?
Sobre o sentido de existir
A crise dos 40 não é minha primeira, claro. O que é a vida senão uma sucessão de crises? Quando tudo está resolvido, só resta a morte.
Mas se a condição humana é descobrir o que raios eu vim fazer neste planeta, a crise dos vinte e poucos me levou ao espiritismo. E vamos já dizer de pronto que toda religião tem coisa boa e problemática misturada, e hoje não consigo me dizer espírita, embora acredite em muita coisa da doutrina.
Entendi que estou nessa encarnação para aprender. Como a criança que tropeça nos próprios pés e cai várias vezes, o sentido da existência é vivenciar tudo isso, assim como sentido da dança é estar presente. Rir, chorar, transar, acertar em alguma coisa, errar pra caramba, dar com o mindinho no pé da cama algumas vezes pra ver se aprende o tamanho do próprio corpo.
O que me desiludiu do espiritismo (além de ver personalidades espíritas falando abobrinha) foi começar a enxergar a raiz individualista no âmago da doutrina — ou talvez eu tenha feito uma leitura torpe, vai saber.
Uma hora as respostas para as perguntas importantes passaram a ser insuficientes. Questões “simples” como a origem do mal, a desigualdade, questões de gênero, a banalidade da vida e da morte; quanto mais lia, mais percebia o pensamento circular e elitista.
Não acredito que somos protagonistas nesse plano de existência, o que significa que o mundo não precisa de você aqui. Esse pensamento é libertador, não existe nada mais opressor do que se dar importância demais.
Então, no que acredito, hoje? Acredito que somos almas encarnadas, acredito que a comunicação com outros planos é muito mais simbólica do que direta, flerto com o animismo (a ideia de que todas as coisas têm uma essência espiritual), e acredito demais na ideia de vibrações, principalmente sobre como o campo emocional que você projeta influencia e seleciona as pessoas ao seu redor (cuidar de você é cuidar do mundo).
Essa jornada toda me levou à ideia da real esfera de influência. Se eu não sou importante para o mundo, para quem? Meus filhos, com certeza, minha família, meus amigos, minha comunidade, meus vizinhos. Para algumas pessoas que tiveram uma oportunidade de publicar na Trasgo? Para você aí do outro lado da tela que me lê agora, talvez?
Chegar aos 40 é a liberdade de saber que você não vai mais mudar O mundo. Mas também a responsabilidade de perceber que você pode mudar alguns mundos.