Texto #4 de 40 textos aos 40.
Percebi que o texto anterior saiu com um título muito ruim. Como editor, eu deveria saber fazer melhor. Mas não se pode obter de volta a flecha lançada, a palavra dita e o e-mail disparado.
O título foi particularmente ruim ao sugerir a lente errada para o texto. Embora o foco nem seja no espiritismo, o título oferece uma leitura binária de concordar/discordar, defender/atacar, quando, na verdade, estou mais interessado nas perguntas.
Um título melhor seria “sobre o sentido de existir”, que convida a investigar sua própria experiência sob uma ótica mais aberta, sendo a minha jornada só um ponto de partida.
Esse tem sido um de meus guias para o consumo de informação. Olhar primeiro para as perguntas, ou se o texto chega com respostas prontas. Até por isso não tenho a menor paciência para conteúdo hiperfocado em vender para o algoritmo, sempre soluções prontas e rápidas em cinco passos fáceis que vão…
O que nos leva à questão das lentes, que se tornam muletas.
Ao ver um vídeo no Youtube, vamos aos comentários para saber o que achamos. Antes de ir a um restaurante, consultamos o número de estrelinhas no Google Maps para saber como vamos nos sentir. Antes de ler um artigo, é preciso saber se o veículo que o publica é de esquerda ou direita para saber se vou concordar ou não. Deixe-me ler um pouco sobre esse filme antes de dar minha opinião.
(Particularmente evito esse último, pois amo alguns filmes que todo mundo odeia, principalmente comédias românticas).
Embora seja impossível viver sem essas lentes (estamos imersos em cultura feito peixes n’água, como dizia David Foster Wallace), em algum ponto elas deixam de nos mostrar o que talvez não veríamos, e passam a ser aquele tapa-olho de cavalo, bloqueando a visão periférica de tudo o mais que aquela experiência poderia nos proporcionar.
O papel do crítico, do editor, do curador, do escritor, é dizer “experimenta essa lente aqui, você vai ver coisas que nem tinha visto antes”.
Mas é preciso balancear com o “vai, assiste primeiro, reflete, depois a gente conversa”. Às vezes é bom arriscar um mergulho sem saber se a água vai estar gelada.