Texto #6 de 40 textos aos 40.
Escrevo à mão hoje, pois é Domingo, e evito ligar o computador — Ironia, liguei o bicho para transcrever e enviar essa mensagem. — Procuro evitar o celular também, mas falho. Estou deitado na rede, dia ensolarado, com bastante vento, outono típico. Os três cachorros dormem na grama ali em frente, depois de terem corrido até o brejo de manhã. Às vezes abro o portão para irem dar uma volta, sítio tem essas vantagens.
Tenho amigos que só conseguem escrever à mão, alguns com suas canetas-tinteiro favoritas e outras idiossincrasias. Uso uma BIC cristal num caderno velho, atrás da folha um desenho esquemático de uma gaveta que fiz. Odeio escrever à mão.
Digito muito mais rápido, minha mão não dá conta de capturar tudo o que quero dizer, quando chego a este terceiro parágrafo, dois outros se perderam para o limbo, outros caminhos não trilhados na árvore de possibilidades. “Essa é a vantagem, a mão te obriga a desacelerar”, e eu concordaria em qualquer outro contexto, no escrever me irrita.
E me vejo ranzinza, reclamando com a página, deitado na rede, curtindo um ventinho, enquanto os cachorros dormem ali adiante.
Sou do tipo com dificuldade de descansar. Percebo que a grama precisa de corte, a aceroleira de poda e daqui a pouco o cipó vai matar o pau-brasil se eu não fizer nada.
Às vezes só queria ser um desses vira-latas de vida mansa, com a janta garantida, nenhuma fatura do cartão de crédito a pagar, ou uma pilha enorme de roupa para dobrar. Mas aí eu não estaria aqui, deitado na rede, escrevendo este ensaio.