Texto #7 de 40 textos aos 40
Eu não treino para ficar gostoso. Treino para não me sentir refém do meu próprio corpo. (Preciso me lembrar disso.)
Treino porque estou chegando naquela idade em que a habilidade de agachar, subir escadas e carregar algo pesado vai fazer toda a diferença na minha qualidade de vida daqui pra frente.
Sempre gostei de atividade física, embora nunca tenha ficado muito tempo em qualquer esporte. Não suporto academia: o ambiente, o tédio, a música alta demais. Em vez de cansar só o corpo, a cabeça saía estufada.
Encontrei a calistenia pouco antes da pandemia, convidado por um amigo a treinar com ele. Aqueles exercícios fizeram sentido para mim. Não existe o exercício ideal, cada corpo precisa encontrar o movimento que clica.
Calistenia é um tipo de atividade semelhante à ginástica artística: flexões, barras, argolas e exercícios com peso do próprio corpo. Ótimo para ganhar força e definição. Combine com algum cardio (corrida, corda, natação) e alongamento (yoga, pilates) e você está feito.
Treino há um bom tempo sozinho, nunca tive lesão que me fizesse pular mais que uma semana de treino. Talvez porque bons programas de calistenia sejam progressivos, com níveis de dificuldade graduais. Ou talvez porque meu objetivo nunca foi estético, faço os exercícios devagar, com atenção ao corpo, atento aos meus limites. Talvez teria resultados melhores se fizesse mais. Ou talvez acontecesse igual na única aula de Crossfit que fiz na vida, quando lesionei o tendão do braço e passei um mês inteiro no anti-inflamatório.
Uma vez ouvi de um médico que o exercício saudável é aquele que te deixa inteiro o suficiente para repetir no dia seguinte. Faz sentido.
Preciso respeitar meu corpo, afinal, não sou nenhum jovenzinho. Minha sessão de treino dura uma hora, é praticamente uma meditação, um momento de estar plenamente presente.
Não é que eu adore treinar. É que eu realmente odeio o meu corpo quando fico sem. Fico preguiçoso, a gravidade do sofá aumenta 200%. Ansiedade aumenta, além da minha tendência natural à depressão. Li em algum lugar que o mecanismo de renovação muscular atua como antidepressivo natural. Faz sentido.
Numa visão holística, o que não é o exercício físico senão o ato de submeter ossos, tendões e tecidos musculares a microfissuras que, quando reparadas, se tornam mais fortes? Fortalecer corpo e mente deve estar ligado.
Treino porque faz bem pra cabeça. Treino porque, de tudo o que faço, esse é um dos principais fatores que me permitirá envelhecer com saúde.
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