Ou quando o dinheiro se torna um fantasma.
Texto #10 de 40 textos aos 40.
O problema de não conversar sobre dinheiro com as crianças é que ele não desaparece do imaginário da criança. Ele continua ali, como um fantasma indomável, pesando a mão sobre as decisões e humores sem que ela o entenda. Como um familiar extra, invisível, irascível, que manda na coisa toda.
Noto minha relação problemática com o dinheiro justamente ao perceber que não consigo ter uma conversa honesta com minhas crianças, mandar a real sobre nossa renda familiar, explicar por que não dá pra comprar um Nintendo Switch. Sim, eu sei que suas primas, seus amigos e até o cachorro da sua amiga tem um.
Na real, até as conversas sobre dinheiro com adultos são meio esquisitas.
Por que esse é um tema tão carregado?
Dinheiro é a abstração do poder. Com ele você tem acesso a coisas, pessoas, experiências, segurança e saúde. Se em uma sociedade ideal o básico estaria garantido (educação, saúde, moradia e alimentação), nessa que a gente tem ficar sem dinheiro acabou, morreu. (O que não é uma verdade física, mas é um tipo de morte social.)
Existe uma relação próxima entre renda e acesso. Com acesso às pessoas e ferramentas certas, se consegue mais dinheiro. E com dinheiro você tem acesso às pessoas e ferramentas. Mas, às vezes, você tem acesso a uma realidade que não corresponde à sua conta bancária, essa dissociação gera todo tipo de conflito.
E gera algumas bizarrices, como o banco me mandando cartinha “parabéns, você faz parte do segmento alta renda, aceite nosso cartão black premium platinumn adamantium”, e eu só quero que o gerente abaixe esse limite do cartão de crédito, pelamordedeus, limite não é dinheiro, parça.
É a teoria econômica Mario Kart. No Mario Kart, as posições mais atrás pegam os melhores itens (é bomba, casco vermelho triplo, casco azul) quando o primeiro lugar vai de casca de banana. O mundo real é o contrário disso, “o de cima sobe e o de baixo desce, bom, xibom, xibombombom.”
No fim, é só isso que a gente espera de uma economia mais distributiva. Menos xibombombom, mais Mario Kart.