Texto #15 de 40 textos aos 40.
Humanos são seres calibrados para reconhecimento de padrões. É isso que nos torna tão adaptáveis, passamos a infância toda observando e reconhecendo padrões ao nosso redor, nos relacionamentos, nos movimentos, nos objetos.
Daqui podemos partir para a filosofia (se existe a ideia da cadeira perfeita, da qual todas as cadeiras existentes são apenas sombra), para a semiótica (da relação entre o conceito-cadeira, a palavra-cadeira e o objeto-cadeira), ou até para a biologia, mas quero ir para a arte. Mais especificamente, para a palavra repertório.
Não existe apreciação de arte sem repertório. Nós gostamos de música porque ouvimos música desde a barriga. O motivo pelo qual músicas diferentes impactam cada um de um jeito diferente tem a ver com tudo o que aquela pessoa escutou até aquele momento da vida. Percepção do som como música passa por reconhecer padrões nela.
Não de uma forma direta, nem para cá, nem para lá. Se nós reconhecemos perfeitamente os padrões, a música se torna repetitiva, chata, previsível. Se não encontramos nenhum padrão, se torna barulho, às vezes não vamos nem reconhecer como música. Por isso é tão difícil apreciar algo completamente fora do seu repertório, você não encontra os ganchos para se apoiar. (E por isso que é possível aprender a gostar de um estilo, treinando o ouvido.)
Tenho aprendido a ouvir jazz. Sempre gostei, meio sem entender, um “tem algo aí”. No último ano tenho ouvido sistematicamente uma lista de “50 melhores álbuns de jazz de todos os tempos”, e percebo que, quanto mais escuto, mais consigo entender. E descobrir quais subgêneros mais me cativam, quais não dialogam comigo.
Até agora escrevi em duas dimensões: reconhecer, ou não. Mas nós podemos tornar nossa matriz tridimensional, você pode reconhecer padrões como parte de uma estética, um estilo, pode associar a idades, vivências ou ambientes específicos, pode associar a um tipo de mídia. E então, quando essas associações se misturam, faz uma baguncinha gostosa. Como o filme em ritmo de jazz, ou o jogo que parece filme.
Até agora falei de música, mas o mesmo se aplica a filmes, artes plásticas e literatura. O título de outra versão desse texto era “como parei de temer os clichês e passei abraçá-los.”
Tem um ditado, não lembro a origem: “trama, arquétipos ou cenário. Você pode brincar com dois desses elementos, não com os três.” Algum padrão precisa restar para que o leitor possa se agarrar. Inovar, na literatura, é entender muito bem os tropos, as tramas possíveis, como funciona o desenvolvimento de personagens, para então saber onde você vai mexer. Não é desejável abandonar todos os arquétipos, eles existem por um motivo.
Chegamos, por fim, à IA, Inteligência Artificial. Odeio IA, mas tinha pra mim que, logo logo, a IA seria capaz de produzir obras incríveis, afinal, IA é ótima para os dois elementos principais da produção artística que coloquei aqui: encontrar padrões, e para produzir algo que mistura padrões existentes com outros, trazendo aquele “algo novo” que mexe com a gente.
Será? Se olharmos para a nossa matriz de reconhecimento de padrões, e se seu raciocínio está junto comigo, já percebeu que essa matriz é absurdamente complexa (abrangendo não só tudo o que você já absorveu de mídia até esse ponto de sua vida, como tudo o que você viveu até aqui.) É nesse segundo ponto que acredito que a IA não vai dar conta. Todo mundo coloca um pouco de si no que faz, é um sabor de chão rodado que a gente reconhece, consciente ou inconscientemente.
Existe uma perda de nitidez na transposição entre viver a queda de um grande amor, e de escrever sobre. E existe uma perda ao tentar escrever a queda de um grande amor só com base em outras histórias assim já lidas. É essa a barreira da IA. Falta vida.
É por isso que um dos principais conselhos de escrita continua sendo “escreva o que você sabe”, que é outra forma de dizer “escreva a sua verdade” (mesmo que transposta para dragões, robôs assassinos e mini gnomos eletrônicos.)
Talvez você esteja achando essa teoria geral de apreciação de mídia a coisa mais óbvia do mundo. Ou talvez esteja pensando em um milhão de exceções, contrapontos ou argumentos. É nesse ponto que eu começava a complexificar o texto, e me perdia. Então vou parar aqui no rasinho, por hora. 😉