Rodrigovk
Escritor, faz-tudo, editor e pai

O mundo não para pra você

Texto #18 de 40 textos aos 40.

O chato fazer aniversário quando adulto é que o mundo não para porque hoje é o seu dia feliz — e nem sei por que eu teria essa expectativa, porque não parava quando criança também.

Mas o aniversário é só mais um dia comum, é bacana, você recebe alguns abraços de amigos, e um monte de mensagens de empresas te dando os parabéns, e cara, o mundo já estava errado o bastante antes da equipe de marketing do laboratório onde fiz um exame de sangue ano passado achar ser uma boa ideia mandar mensagens de parabéns no whatsapp. Ou o banco que manda vídeos de cachorrinhos, e sim, eu entendo (trabalhei com marketing minha vida inteira afinal), mas é surreal e distópico todas essas empresas fingindo que são minhas amigas. Empresa não é amiga de ninguém. Pessoa jurídica nem é gente. Até poucos anos atrás, o cartãozinho com o dente feliz que sempre recebi do dentista pelo menos vinha assinado, hoje é só um emoticon no zap.

Mas o que você esperava, Rodrigo? Sei lá, algum tipo de fada do dente, uma fada da louça que viesse à noite e lavasse a pilha da pia, outra que colocasse uma máquina de roupa pra lavar, talvez as três fadinhas, os ratinhos, os passarinho tudo da branca de neve dando um jeito na casa, se bem que acordar com a sala cheia de pombo e rato cheirando lavanda deve ser noiado.

Percebo que o que quero para o meu aniversário é o mínimo para alguém de alta renda, ou talvez isso se chame exploração, ou talvez só o sonho do homem anacrônico: a louça sempre limpa, roupa dobrada, ter alguém pra fazer isso pra você.

Mas em uma casa onde todo mundo trabalha pra caramba, com duas crianças, a rotina acaba meio insana e a gente se contenta como dá, e chega o fim de semana corta a grama, e corrige prova, e prepara material para a semana, e lava três máquinas de roupa, dobrar vai ficar para depois, e você deveria incluir as crianças, ensiná-las a cuidar da casa também e faz quase dez anos que tentamos fazer isso e ainda não passamos da parte não deixar meia suja no meio da sala.

E esse povo ensinando os robôs a escrever livros, criar imagens, vender mais sabonete com petrolatos, parabenos, parabéns a todos os envolvidos, enviar mais spam. Não tem uma alma que pensou que esses trilhões poderiam ser investidos em robozinhos inteligentes para dar uma garibada na casa do trabalhador? (Claro que não, bilionários não lavam a louça, eles têm um exército de pessoas mal pagas para fazer isso para eles. E até tenho um robô aspirador, mas o trabalho de tirar todas as meias e fios e coisas do chão, que depois varrer e passar pano é dois palito)

E sim, mal pagas, porque não existe bilionário que não seja vilão cartunesco. Ninguém em sã consciência acumula bilhões de dólares num mundo como o nosso, qualquer pessoa com um pingo de boa fé já começaria a desovar o dinheiro para causas melhores muito antes da cifra chegar a esse absurdo.

Divago. Talvez eu tenha chegado aos 40 com raiva. Acho que a raiva vem sendo construída devagar, eu era um jovem de vinte e poucos que acreditava mais no mundo. Corrigindo: eu era um jovem que acreditava no sistema, agora eu sou um velho que acredita no mundo. Nas pessoas. No sistema não, o sistema tá moendo gente, vamos mudar isso aí.

O que amarra todo esse resmungo aqui é o tempo. A gente vive uma era de desigualdade de tempo. Claro, existe o paralelo entre tempo e dinheiro, mas talvez se pegar pela desigualdade de tempo o pessoal que tem um pequeno negócio, uma fábrica, consegue ver que está muito mais perto de baixo do que de cima.

Essa semana veio no grupo de empresários da cidade a crítica ao fim do 6×1, apocalipse, vamos apoiar o projeto paralelo de compensação por horas e tal, e é complicado, porque a discussão perdeu toda a nuance, possibilidade de flexibilizar não é ruim, mas costuma vir acompanhada de precarização pela desigualdade de poder entre quem contrata e quem é contratado, mas imagina o trabalhador conseguir ir buscar o filho na escola e enfim, não dá pra resolver isso em 140 caracteres. Tô velho demais para essas discussões que capturam o discurso e desligam o cérebro.

Dei uma viajada legal nessas 800 palavras. É assim que minha cabeça funciona, na maior parte do tempo, em desvios, paralelas e perpendiculares. É meu aniversário, decidi escrever o que desse na telha.

“Isso também passará.” “Porque, no fim, o jeito como você vive os seus dias é o jeito como você vive sua vida.” Chegar ao meio da vida enxergando sabedoria em platitudes é meio ridículo, eu sei, mas existe um motivo para estas frases serem repetidas à exaustão.

Agora vou ali lavar a louça que a fada madrinha não passou por aqui à noite. E o mundo não para porque é seu aniversário.

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