Texto #19 de 40 textos aos 40.
“Você conhece algum anticapitalista que divide o salário com um desempregado? Que divide a casa com um morador de rua?”
Começava assim o vídeo postado por um conhecido na rede social. Depois de revirar os olhos e conferir se meu cérebro continua rosa, fiquei com isso na cabeça: quem gravou aquele vídeo sabe muito bem que está falando bobagem, mas quem recebe não sabe que está vendo abobrinha.
A gente precisa voltar à definição do que é capitalismo, já que a Escola de Chicago foi astuta em destruir a pluralidade de pensamentos possíveis para a economia mundial ao se tornar sua visão de economia um sinônimo de “comércio” ou de “dinheiro”.
Se você se diz anticapitalista, arece um ET, como se o capitalismo fosse a única maneira sã de organizar a sociedade, ou como se a única alternativa fosse o comunismo, ou se a proposta fosse voltar ao escambo. Minha galinha por quinze minutos conversando com sua IA.
Só que o uso de dinheiro em comércio precede em dois mil anos o início do capitalismo!
O que significa que você não precisa de um sistema capitalista para ter comércio, dinheiro, hambúrguer e pastel de feira. (Para ter McDonalds precisa de capitalismo sim, centralização econômica é a única maneira de vencer as hamburguerias de bairro com um produto meia boca.)
Sou empresário, e passo tempo demais mastigando essa dúvida: como tocar meu negócio, ganhar dinheiro, bancar minha vida, de um jeito que fique bom pra todo mundo?
Conceitos abstratos com muito chão ajudam a tornar o texto mais conciso, mas só quando o seu significado está claro. E quando os interlocutores são capazes de enxergar que nem tudo é preto no branco. Por exemplo, eu gostaria agora de entrar em uma tangente e explicar que, na verdade, o capitalismo liberal tem a grande vantagem de resolver de maneira elegante o problema da oferta e da demanda.
E também aceitar que o capitalismo foi o motor do desenvolvimento econômico do século XX, elevando o padrão de vida no mundo todo. Só que em algum momento a curva virou, os ricos se tornaram ricos demais, os governos perderam força para o capital, e mecanismos de balanceamento foram extintos.
Não é porque funcionou em determinado momento que continua funcionando.
Meus filhos fazem parte da primeira geração que provavelmente terá condições de consumo inferior aos pais. O mundo mudou. Em alguns aspectos, para pior — concentração de renda e clima, por exemplo.
A gente vive em um mundo com cada vez mais carbono na atmosfera, onde a tecnologia para mudar o cenário drasticamente já existe e evolui a passos rápidos, mas onde empresas gigantescas trabalham contra, atrasam essas mudanças a troco do bônus de fim de ano de seus executivos.
O que me deixa puto é que em um sistema totalmente liberal, esses dinossauros já teriam sido trocados por desafiantes mais ágeis. Mas, com a proximidade ao poder e mecanismos de balanceamento extintos, eles conseguem comprar os desafiantes, manipular a mídia, modificar legislações.
Hoje a lei de direitos autorais se tornou uma clava bizarra utilizada por grandes empresas para prevenir que você conserte seu próprio trator (porque para isso você precisaria quebrar o código de segurança que impede que você o faça). Essa mesma lei quebra empresas melhores que poderiam substituir as grandes.
Eu não consigo escrever sobre anticapitalismo sem escrever um livro, socorro! E ainda estou no rasinho aqui, cada parágrafo daria para se aprofundar muito.
Deixe-me pular para a conclusão. Um dos problemas é a centralização (e aí o comunismo falha drasticamente também.) Você reclama que no comunismo só existiria um supermercado, mas faz todas as suas compras na Amazon. Que a mídia seria manipulada, mas todas as suas fontes de informação são filtradas pela Meta ou pelo Google. Que não teria liberdade de expressão, mas não consegue sair de casa sem levar seu rastreador portátil. Todas as parafusadeiras vêm da Grande Fábrica de Parafusadeiras da China, independente da marca.
A gente já vive a distopia centralizada, mas em vez de meia dúzia de barbudo decidindo tudo em uma sala fedendo a charuto, você tem meia dúzia de caras brancos em crise de meia idade e bilhões na conta bancária.
(E é por isso que você está lendo este texto no meu blog ou no seu e-mail, e não no Instagram ou no Facebook.)
Se você é anticapitalista e também não é exatamente comunista, sobra o quê? Aí é que está. Falta popularidade aos modelos alternativos.
Gosto demais do modelo da rosquinha (Doghnut Economics), da economista Kate Raworth: um mínimo social, que garantiria educação, trabalho, moradia e dignidade pra todo mundo, e um teto ecológico, que impediria… aponta tudo o que está aí.
É um modelo didático que resolve grande parte dos problemas do capitalismo hoje, ao substituir o lucro e o GDP por métricas mais complexas que abrangem o humano como um todo, com modelos redistributivos. Também acaba com a palhaçada das “externalidades”, que o sistema atual permite varrer tudo para debaixo do tapete.
Gosto das ideias que alimentam o solarpunk, um movimento artístico cultural centrado em reaproveitamento, comunidade, independência.
Ser anticapitalista não significa dividir a casa com um morador de rua.
E sei que se eu sentasse em frente ao meu parente com um café e pão de queijo, com a pergunta “você acha bom existirem moradores de rua?” a resposta seria não. Daí a gente vai, passito, passito, por que esse cara está na rua? Até aquela perguntinha capciosa, “você acha certo o centro de São Paulo ter vários prédios vazios que poderiam ser habitados, que estão vazios só por causa da especulação imobiliária?”
Eu te garanto que os proprietários desse prédio não precisam desse dinheiro para sobreviver. Talvez precisem para poder comprar a sétima mansão na praia, mas, com certeza, não para levar o filho na escola. Por que a prefeitura não poderia pagar um valor simbólico, bem abaixo do preço “de mercado” inflacionado e transformar aquele prédio em moradia popular?
O cara que grava (ou financia) um vídeo falando “você conhece algum anticapitalista que divide a casa com um morador de rua” quer que você pense que é a sua casa que está em jogo, e não o décimo imóvel de sua propriedade que está parado há anos, fechado, só esperando a gentrificação daquela área da cidade.
No site da economia da rosquinha, tem uma frase linda: “Ensure that finance serves the work rather than drives it.” (Garanta que as finanças sirvam ao trabalho em vez do contrário.)
Tem uma galera que não percebe que a briga não é com o pequeno empresário, com o dono de um negócio que movimenta, sei lá, cinquenta milhões de reais por ano, ou com a família que tem a casa na cidade e outra na praia com 3 quartos. É com peixe muito maior. É quebrar os gigantes para que uma multidão de pequenos aflore. Consciência de classe que chama, né?