Rodrigovk
Escritor, faz-tudo, editor e pai

Parece mesmo um comercial de margarina

A lâmina desliza pela textura arenosa da cenoura, chop, chop, chop, e tudo o que você consegue pensar é que não queria estar cortando cenoura, mas no sofá, ou cama, ou até mesmo no chão, qualquer lugar que não em pé. Ainda falta a mandioquinha e depois o brócolis, por que você não comprou aqueles malditos legumes cortadinhos do supermercado pelo dobro do preço? Não era para ser assim.

Você olha no relógio, quinze para as oito, não é tão tarde. Você reclamando quando muita gente nem chegou em casa ainda. Mas o cansaço, a dor no corpo, a mente que insiste em devanear, escorregando o olhar para a ponta da faca tão próxima dos dedos, chop, chop, chop, um deslize basta para misturar um tanto de sangue aos legumes, ninguém ia perceber se cozinhasse tudo junto.

Mas você sabe que não. Um corte fundo o suficiente e você nem precisará terminar a porcaria dos legumes, pode pedir logo uma pizza, e dane-se o jantar saudável da Sofia e do Joaquim, seria a desculpa perfeita, e a faca está tão perto dos dedos, e o cansaço, e aquele choro infernal que não sai do ouvido, nem mesmo quando o bebê sequer está acordado, mas o seu cérebro maldito transforma tudo em choro de criança: o barulho da geladeira, o passarinho lá fora, até a droga do cachorro. Não era para ser assim.

Você pensa três vezes antes de apertar o botão do aparelho. Flash.

***

O pepino está quase no fim, e seus dedos ainda estão inteiros, e você precisa decidir, e decidir é tão cansativo, decidir o que vai ter no jantar, decidir que roupa a Laís vai vestir, mas não pode ser o rosa, o rosa não, tem que ser o verde, o veeeerdeeee, e você sabe que o verde é o único que não está manchado de manga, ou de vômito, ou de chocolate, mas foda-se, não é como se você estivesse tentando impressionar ninguém, nem mesmo a Fabi da escolinha.

As blogueiras adoram dar reprint naqueles posts “as crianças são mais importantes, você não precisa ser uma dona de casa dos anos cinquenta, precioso mesmo é aproveitar a infância junto”, e é tudo tão bonito e divertido até quando você comenta que o Lucas comeu um pedaço de manga que está no chão da cozinha desde a semana passada. Ninguém fala nada, ninguém entende o pedido de ajuda. Claro que a casa não é a coisa mais importante quando se tem grana para pagar alguém para cuidar disso pra você. Mas bonito mesmo são as fotinhas de “maternidade real” com alguns brinquedos espalhados no fundo, e não uma pilha de roupas sujas, algumas fedendo a cocô por quase duas semanas, porque essas não dá pra enfiar assim na máquina, e quando é que você vai ter tempo de lavar à mão? Não era para ser assim.

Você pensa duas vezes antes de apertar o botão do aparelho. Flash.

***

Parece mesmo um comercial de margarina, você corta a banana da Valentina, que está contando que nessa semana a flor que ela plantou na escola cresceu, e está maior do que ela, e já tem até um botão, e o Júlio está aprendendo a puxar o brinquedo musical da cadeirinha, olha como a coordenação dos bracinhos está desenvolvida, logo logo ele vai estar se arrastando por aí. O cheiro do café recém passado invade a cozinha bem iluminada, e você olha de esgueio para o aparelho, você está feliz, mas será que está feliz de verdade? Tem alguma coisa no canto da sua mente que sabe que não está certa.

O cheiro de café atrai para a cozinha a pessoa para quem você disse “sim” há tantos anos, que prometeu amar e respeitar, e toda aquela baboseira toda, e você se pergunta por que foi dizer todas aquelas palavras. Talvez foi para outra pessoa, diferente, a de antes. Não essa versão que entra na cozinha, pega uma xícara de café e vai se sentar sozinha na varanda sem sequer um “bom dia”.

“Por que não veio me dar beijo?” sua filha pergunta, e como se uma sombra invadisse o ambiente, o café amarga, a banana azeda, e o bebê aprende a gritar por esporte, e é demais para você, porque não era para ser assim.

Você aperta o botão do aparelho sem pensar. Flash.

***

A faca bem que precisa ser amolada, mas quem tem tempo para isso? Você sabe que não deveria fazer força para cortar as batatas, você assistiu a todos os vídeos do Youtube de como segurar uma faca como um chef de verdade, mas é claro que ninguém repara, quem em sã consciência diz “nossa, como você segura bem uma faca”.

Você sabe que fio ruim é receita para cortar o dedo, que quanto menos força, menos acidentes, mas no fundo talvez você até queira um pequeno acidente, nada muito grave, apenas o suficiente para que alguém repare em você, repare de verdade, em como as noites sem dormir estão acabando com o seu humor, em como você gostaria de estar assistindo àquela última série que todo mundo comenta, mas em vez disso está cortando batatas depois que as crianças dormiram porque não dá tempo de fazer isso num horário menos esdrúxulo.

Você olha para a faca tão perto dos seus dedos, e a faca não está bem amolada, acidentes acontecem. Chop, chop, chop. Você já consegue imaginar o barulho acordando todo mundo, o grito entalado há anos na garganta, você precisa gritar mais do que precisar cortar o dedo. Não era para ser assim.

O aparelho está de ponta-cabeça, e nele um pequeno contador analógico mostra o número quatrocentos e trinta e nove. Não é um número cabalístico nem nada, e, claro, há pessoas que apertam compulsivamente o botão do alternador de realidade, esperando cair em alguma em que ganharam na loteria, mas você nunca vai tão longe, linhas do tempo são resilientes demais.

Mas o número assusta, você sabia que já havia apertado o botão vez ou outra, mas tanto assim? Tenta se lembrar de alguma das outras realidades, se a sua filha sempre se chamou Beatriz, se o mais novo sempre foi José, e sua cabeça dói, porque não é assim que funciona, você “sempre” viveu na realidade atual.

E o cansaço é tão grande, e você pensa na Bia e no Zezé, e também em como vocês já haviam decidido esses nomes no primeiro encontro, nos pedalinhos, dez anos atrás. Em como as coisas mudaram tanto, não era para ser assim. O botão está ali, ao alcance dos seus dedos, um clique e muda tudo.

Você tenta se lembrar das outras vidas, e não consegue afastar o pensamento que já teve quatrocentas e trinta e nove vidas diferentes, em quantas delas teve filhos, quantas crianças haviam simplesmente deixado de existir? Você olha para as batatas na sua frente, a faca, que merda de vida, por que não escolher outra? Repete sem pensar o bordão da propaganda da TV, “a felicidade ao alcance dos dedos”, e o que está ao alcance dos seus dedos é uma faca mal amolada.

Então, você se dá conta de que a única coisa comum a todas as realidades é você, “até quando vai fugir de si mesmo?” diz o título daquele livro idiota de autoajuda que vendeu como água no deserto, então fica fácil de saber onde está o verdadeiro problema. Talvez essa faca mereça mais do que um dedo, talvez um pulso, ou dois.

Teria que ser rápido, ou faltaria coragem, então num impulso você pega a faca e destrói o alternador de realidades. Termina o serviço com o martelo de carne, num movimento catártico, e só percebe que está gritando quando vê três rostos assustados ali na cozinha.

Você sorri, então se dá conta de que deve estar com o sorriso do Jack Nicholson naquele filme, com o martelo de carne na mão, e começa a chorar. “Tá tudo bem?” pergunta a mais velha, você a abraça e diz que sim, a pega no colo e abraça sua família toda de maneira meio desajeitada, porque a vida não é mesmo um comercial de margarina, mas é a sua família, e você vai lutar por ela.

“Vai ficar tudo bem, querida”, você responde, e se lembra do “sim”, e dos sorrisos, e dos abraços, e dos beijos, essa é a sua vida e você vai lutar com o que dá para fazer.

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