Rodrigovk
Escritor, faz-tudo, editor e pai

Boa noite, eu te amo

(Texto #32 de 40 textos aos 40)

Se tem um artigo que estou tentando escrever desde que comecei essa série da crise de meia idade, é sobre ser pai. É um desses assuntos tão complexos, um buraco negro conceitual que me envolve de tal maneira que não consigo encarar de frente, apenas cortar tangentes.

De frente, sobram chavões: meus filhos são a coisa mais importante do mundo pra mim, eu nunca senti um amor tão intenso assim.

Mas a real é uma tangente mais complexa. A começar pela definição de “amor”: prefiro trabalhar com a linha da Bell Hooks, do amor como verbo, como intenção, um compromisso íntimo com a felicidade alheia.

Quando se ama os filhos, não se trata de todo mundo dançar kumbaya sob o arco-íris, mas um desejo profundo de que sejam felizes, uma vontade cortante que leva a brigas importantes e bestas, sobre a necessidade de fazer as tarefas, tomar banho, escovar o dente, tentar equilibrar a impossível balança de possibilitar uma infância cheia de risadas e brincadeiras com o pacote básico de como sobreviver humano num mundo desumano.

Ter um filho muda você, profundamente. A mudança hormonal é mais clara nas mulheres que engravidam, mas até adotantes e homens sofrem mudanças hormonais com a chegada de crianças. São elas que fazem de você um ser um pouco mais redondo (o charmoso “dad body”), e são essas mudanças que explodem na sua cara como uma granada de luz a ideia da sua finitude. Essa criança está aqui para tomar o seu lugar no cosmos. De repente, começa a fazer sentido plantar tâmaras.

Tudo isso muito bonito, vamos ler e aprender sobre parentalidade, e você encontra abrigo em pessoas incríveis como Elisama Santos e Alexandre Coimbra Amaral, que costumam mandar a real e tirar a pátina da parentalidade bonitinha de jogo.

Quando dizem que criar filhos é mexer com a criança interior, que é preciso cuidar dela primeiro, não é post pra ganhar coraçãozinho, é enxergar a sua versão que tem medo, ansiedade, receios, ciúmes, tudo isso vem com uma força arrebatadora, e de repente você se vê repetindo comportamentos que não esperava, e se vê como uma pessoa muito pior, mais crua e trouxa do que pensava ser.

Porque uma criança não vai parar até encontrar as feridas abertas. E vai cutucar, forte.

Ter filhos é pensar o tempo todo em felicidade hedônica x eudaimônica: a primeira, que se trata da alegria, de vivenciar o presente, o prazer, o corpo, a risada, o ficar até mais tarde assistindo TV com as crianças; e a segunda, que é significado, perspectiva, a sensação de pertencimento e propósito, e amanhã tem aula, essa casa precisa de um mínimo de estrutura.

É lembrar que não estamos no mundo para ser servidos, e sim para servir ao mundo. E colocar uma criança neste plano exige um tipo especial de esperança.

Eu não sei se é a sociedade neoliberal que está torpe, ou se eu faço alguma coisa errada, mas estou sempre cansado. Exausto. Cansado de não ter disposição para jogar bola com as crianças, cansado de nunca ter dinheiro para nada, cansado de chegar às sete da noite em casa depois de um dia cheio e ainda precisar fazer janta, mandar as crianças pro banho, preparar a mochila do dia seguinte e precisa ver que barulho estranho é aquele no carro, negociar o tempo de tela, hoje não, é boa noite e cama, lavar a louça e como assim já são 9:50, eu ia ver se conseguia escrever uma newsletter hoje.

Algum tempo atrás, escrevi um pequeno conto sobre estar no olho do furacão. É agoniante. Resolvi publicá-lo no blog hoje, e chama “Parece mesmo um comercial de margarina”.

[Parece mesmo um comercial de margarina]

Melhora. Se tem uma coisa que eu posso dizer é que minha jornada com filhos só melhora a cada ano. Os primeiros foram enlouquecedores, até que, devagarzinho, quanto mais autonomia as crianças desenvolviam, mais rica e interessante se tornou minha jornada na parentalidade. Talvez isso tenha a ver com meu perfil, não gosto de ser pai de bebê, é bem mais legal ser pai de crianças que já tomam banho sozinhos e passam a manteiga no próprio pão. Me pergunto como vai ser pai de adolescentes. Tenho a impressão que vou gostar.

Uma amiga, mãe de uma moça de pouco mais de vinte anos me disse “a gente esquece que, se tudo der certo, a maior parte do tempo vamos ser pais de pessoas adultas. A fase da infância é só uma ponte. Mas é onde construímos o nosso relacionamento com esses futuros adultos.”

Também sempre retorno a um comentário de um tio, em um Natal qualquer, para o meu primo (que decidiu nunca ter filhos, mas acabou se tornando padastro): “ter filho é a experiência mais intensa disponível para nós mortais”. Intensa. Para todos os lados, é tudo muito.

Ódio de quem se diz pai/mãe de pet. Você tem todo o direito de amar seus animais, mas cuidar de um ser humano é um nível de intensidade completamente diferente. Um pet não vai gritar com você porque acabou o pão depois de você passar o dia inteiro para lá e para cá levando no médico, dentista, aula de natação, levando o documento que faltou da matrícula da escola, a roupa da apresentação, isso enquanto resolvia o BO emocional do amiguinho que não o deixou ir no gol durante o futebol, e isso tudo depois de uma noite mal dormida porque a criança passou a madrugada tossindo.

Eu sei, esse texto está imenso, onde isso vai dar? Calma, estou tentando resolver o que eu acho de ser pai, e é uma pergunta tão difícil. E me sinto a pior pessoa do mundo quando meus amigos se revelam grávidos, pois, no fundo, não consigo ficar feliz por eles, talvez porque eu não me considere um bom pai.

E lembro duma frase do Austin Kleon que “a única coisa que me diz que devo ser um bom pai é me preocupar o tempo todo que eu não sou”. Mas devo servir pra alguma coisa, pelo menos segundo o amor da Bell Hooks. O que mais quero neste mundo é que sejam felizes.

É amor sem posse, sem achar que eles me devem algo só por serem meus filhos, mas é amor tomando porrada o tempo todo de uma rotina que não cabe, é amor que pisa em ferida mal cicatrizada, a criança que grita a falta de controle.

Dia das crianças logo tá aí, todo mundo postando fotinha bonita. Eu queria escrever algo bonitinho também, mas, no fundo, o que define essa relação com a parentalidade é a intensidade. Amor, sim, mas o amor diamante lapidado pela pressão.

Tudo isso para me contradizer e perceber que busco, cada vez mais, leveza.

Leveza e presença estão ligadas. Uma presença leve é aquela confortável, que aceita as coisas como são, as pessoas como são, idiossincrasias e defeitos e tudo.

Orra, Rodrigo, você fala o texto todo de intensidade, e vai terminar assim, falando de leveza? Sim, pois é. Bem-vindos à realidade de criar filhos, quando as coisas borbulham lá no fundo, e tudo o que você tenta é tornar as coisas leves. Às vezes dá certo, às vezes não.

Por isso faço o possível para sempre dizer “boa noite, eu te amo.” Independente do que aconteça não importa as brigas. Eles precisam saber disso, todo dia.

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