(Texto #35 de 40 textos aos 40)
Outro dia, depois daquelas conversas difíceis sobre dúvidas, inseguranças e caminhos, virei para esposa e disse “sabe, pensei que aos 40 anos eu já seria adulto…”
Sabe quando você procura o adulto para resolver a situação mas percebe que você é o adulto responsável?
É confortável não tomar as rédeas da própria vida. Olhar para uma Figura de Autoridade e deixar que ela te diga o que fazer, o que buscar, o que você deveria sonhar.
Porque tomar o rumo da própria vida é se responsabilizar por suas decisões, o que significa que se você está ferrado sem dinheiro, tentando equilibrar uma vida que com pontas demais, a conta é sua.
O dilema da responsabilidade aperta forte o calo de quem tem alma de artista, quem tem interesses múltiplos, quem não vê sentido num caminho tradicional de emprego em multinacional fazendo carreira criando anúncio atŕas de anúncio pra vender mais aplicativo de clicar em vaquinha nas redes sociais.
O filme “Tudo em Todo lugar ao mesmo tempo” mora em minha cabeça sem pagar aluguel. Detalhes como a protagonista ser “a pior versão” de todo o potencial que tinha, ou o fato dela ter comprado microfone, sapatilha e o caralho a quatro para colocar tudo como “despesas do trabalho”, e olha pra mim, tocando um espaço de artes e atividades que é direcionado pelo meu múltiplo e infinito interesse em coisas tão díspares.
Às vezes a gente não cabe nos modelos, e quando isso acontece, não se sente adulto. Parece que depois de 40 anos a vida já devia ter me martelado o suficiente para eu caber na forma.
“Ninguém vira adulto de verdade” é metade da história. A outra metade é que sim, eu virei ADULTO quando passei a ser responsável por outros seres humanos.
Estou tentando me lembrar qual cartunista escreveu “queria voltar ao tempo em que ‘não me sentir adulto’ era fazer piada sobre não saber dobrar lençol de elástico, em vez de descobrir como cuidar desse bebê que não para de chorar de madrugada”.
Ter filhos é uma paulada, de repente você tem que cuidar de um bebê, de repente você tem uma criança olhando para você e esperando que você tome as decisões, e pior, que seja uma Pessoa Responsável, que fale coisas “chega de TV por hoje”, ou “não, você não pode jantar pastel de chocolate”, quanto tudo o que você queria era jantar pastel de chocolate.
Quando a gente é criança os adultos parecem saber o que estão fazendo, e quando chega a sua vez, é como se te jogassem na décima fase, sem passar pela introdução que te ensina que botão que pula, qual corre.
Uma dúvida constante que esposa e eu exploramos: será que passamos a impressão de saber o que fazemos, ou será que todo mundo enxerga que a gente se sente no meio do furacão jogando de improviso?
Costumo pensar que os outros nos enxergam como adultos normais, mas, por outro lado, vizinhos já perguntaram para pessoas próximas se eu estava bem da cabeça. Ou seja. ¯\(ツ)/¯
“Ninguém vira adulto de verdade” é o nome de um livro da cartunista Sarah Andersen, que mostra situações mais comuns para jovens adultos.
Volta e meia me pergunto se sou adulto de verdade. Por um lado sim, ter filhos te joga pra próxima faze quer queira, quer não, e você que aprenda os botões enquanto enfrenta os monstrinhos vários do seu dia.
Por outro lado, sei lá. Adultos sempre parecem saber o que estão fazendo… E não pergunta pra mim, como eu vim parar aqui, eu só tenho seis anos.