Quem derrubou o giz? Foi a cadeira! A cadeira! Quem derrubou a poltrona foi a cadeira? Quem piou? Pó!
Você acabou de ouvir a minha filha contando uma piada. Minha filha está nessa fase que as crianças tem de contar muitas piadas. E são muitas, muitas mesmo. São meio dadaístas, piadas que não fazem muito sentido. Às vezes elas são engraçadas justamente por isso.
As crianças pegam a estrutura de uma piada que ouviram e começam a experimentar, a mudar o final, o começo, a personagem. Então é legal a gente ver como essa questão está muito ligada ao desenvolvimento da criança, da inteligência. Até porque a piada é um jogo que envolve um trabalho complexo de linguagem, além da expectativa, de ter uma noção do que o outro espera ouvir.
Claro que nessa fase das piadas dadaístas da minha filha ainda falta esse detalhezinho, mas ela chega lá.
Aproveitando que estou falando sobre piada e inteligência, não considero uma piada aquela agressão travestida de humor, que tem muito mais a ver com a busca de poder, de disfarçar uma inferioridade.
Isso me lembra que outro dia fui levar o carro para trocar o sensor de ré, e fiquei muito incomodado, pois o dono do lugar não parava de fazer piadas. Nem eram tão ruins, embora até fossem um tanto machistas. Mas sabe quando alguém tenta forçar uma intimidade que não existe, te deixando incomodado, eu estava louco para ir embora. E o negócio ainda foi mal instalado, eu tive que voltar, mas não queria, justamente para não ter que ouvir aquelas piadas horríveis.
Voltando às piadas divertidas. Pensando na relação de humor e desenvolvimento, até o meu filho mais novo tenta contar piadas mesmo ainda sem saber falar. Ele fala umas dez ou vinte palavras (que só os pais entendem), mas ele já conta piadas, que consistem em fazer barulho de pum com a boca (nem sempre com a boca) e apontar para outras pessoas. Então você já imagina o tipo de criança que tenho em casa.
É incrível como a piada está tão ligada ao nosso senso de pertencimento. Quando a gente tem um grupo, quanto mais coeso o grupo, mais se desenvolve um humor próprio. As piadas internas que ninguém de fora entende. Muitos casais e amigos íntimos têm piadas que são só daquelas duas pessoas no mundo. Os grupos têm piadas que só pertencem àquele grupo.
Então o humor fortalece muito o pertencimento. E se essa fosse uma aula do meu curso de escrita eu diria “e o seu grupo, ele tem um humor próprio? Ele tem piadas internas, ou você está trabalhando só com humor genérico?”
É muito forte esse senso de pertencimento. Então volto à minha filha, que conta centenas de piadas por dia. Vejo como uma tentativa de comunicação, de dizer “eu pertenço a esse lugar, pertenço a essa família. E a cada risada que consegue tirar da gente, mais forte esse nosso senso de intimidade.
E para encerrar deixo vocês com a música “Simples assim – Capela“.
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