Vamos falar sobre um número bem específico, diferente para cada um. Um número capaz de ditar sua saúde, felicidade, e se você não tomar cuidado, surrupiar tudo isso. Numerologia? Não, dinheiro.
Vamos facilitar as coisas e chamar de “cem moedas de ouro”.
Eu queria um apartamento no Guarujá
Mas o melhor que eu consegui foi um barraco em Itaquá
Cem moedas é o seu custo de vida, a quantidade que você precisa todo santo mês para pagar os impostos ao seu senhor, manter a casa, bancar o tutor das crianças, comprar comida, consertar o telhado que quebrou de novo pela terceira vez esse ano.
Se você se identifica como homem em uma sociedade patriarcal, ferrou. É bem provável que você esteja tão familiarizado com a ideia que esse número representa que já internalizou a ideia de ser responsável por esse valor (o que pode ou não ser verdade). Até aí tudo bem. O problema é quando, grudadinho a isso, está a ideia de que a falha em conseguir esse valor é uma falha moral.
Você não sabe como parte um coração
Ver seu filhinho chorando, querendo ter um avião
O que acontece quando, tendo uma renda variável, você não consegue as cem moedas de ouro? Você pode ser um lanceiro freelancer, ou um carroceiro por encomenda. Como calcular quanto cobrar por uma viagem, conseguir bancar os cavalos e ainda sobrar seu tostão?
No começo, percebe que número redondo é um tanto arbitrário, dá pra cortar um pouco do mercado, alguns luxos, e tá tudo bem.
Aí chega o gremlim.
Aquele, pequenino, que vive dentro da sua cabeça e se alimenta de culpa. A cada mês que você não garante as cem moedas, o gremlin ganha um afago, um docinho.
Às vezes, é bom ter um gremlim desses te chutando, ajuda com o sangue nos olhos para ir atrás de, sei lá, 120 moedas no mês seguinte, procurar um dragão a mais para matar.
No entanto, é tempo de dragões magrinhos, talvez todos os dragões que valham a pena estejam deitados em cima da sua fortuna hibernando, e no mês seguinte, somente 80 moedas. Um X-burguer para o gremlim de sua cabeça.
Você não sabe como é frustrante
Ver sua filhinha chorando por um colar de diamante
Agora o gremlim já tem força para girar o leme.
Aquele plano que você tinha de treinar todos os dias, que poderiam te tornar um caçador melhor, vai por água abaixo. Ainda que não custe nada atirar umas flechas no quintal de casa, quem você pensa que é para usar uma hora inteira do seu dia praticando arquearia? Você é um lorde sentado na grana, por acaso? Não. É uma hora a mais que você vai usar pra caçar dragão.
Em vez de comer bem, vai optar por refeições mais rápidas e menos saudáveis, aquela carne seca dá pra mandar pra dentro da estrada, quem tem tempo de preparar um ensopado? Também não vai ao médico, se as 80 moedas nem chegam no custo de vida, esse “luxo”, esquece.
Alguns meses assim, e você já cortou todas as atividades que não trazem dinheiro diretamente, o que é estúpido, afinal, com aquele joguinho de bocha com o pessoal da guilda vinha informações relevantes sobre o paradeiro de novos dragões. E os poemas que postava nos quadros de aviso do vilarejo te mantinham na ponta da língua sempre que um aldeão estava com algum tipo de problema, fosse dragão, ou apenas uma onça.
Só que agora o gremlim já está hiperalimentado e dominando tudo, feito o sem-rosto na casa de banho dos espíritos, não tem espaço para mais nada. Poema não traz moedas de ouro, você não escreve.
Não é como se tivesse energia para caçar 16 horas por dia, então, exausto e desanimado, gasta as horas com entretenimento barato, tão passivo que nem o gremlim consegue te mover. Na verdade, ele também é alimentado por esse tipo de coisa, porque entretenimento fácil também gera culpa.
Cê não sabe como eu fico chateado
Ver meu cachorro babando por um carro importado
A espiral negativa é dissimulada, às vezes nem os próximos percebem algo errado, enquanto os seus dias são marcados pelo gremlim sussurrando, “tá errado, tá fazendo tudo errado”.
Uma hora, você começa a ressentir até sua família, porque cem moedas é muito dinheiro, se você fosse um caçador solitário morando em um barraco, qualquer 15 moedas numa dragonete garantiria o mês.
Então se lembra que a maioria das famílias vive com 20 moedas, e tudo o que você consegue apreender dessa informação é dupla incompetência: não consegue nem as cem moedas, mas também não consegue viver com menos que isso.
Começa a quebrar a cabeça para encontrar meios de reduzir o seu custo de vida, e todas as soluções envolvem mudanças drásticas, e já é tão difícil para as crianças entenderem por que todas as outras viajam sempre para o Castelo do Rato, e você mal consegue levá-los para comer na taberna vez ou outra.
E você lembra que o reino vizinho colocou um preço alto sobre sua cabeça, um valor que garantiria o sustento da sua família por muitos anos, e, só para entreter a ideia, começa a pensar em estratagemas. De que vale um caçador que não consegue caçar seu mínimo?
Às vezes o gremlim é mais forte.
Mas às vezes, você consegue fechar os ouvidos por tempo o suficiente para escrever um poema, ou treinar arquearia ao pôr do sol. Nessas horas, você se lembra de que a vida é muito mais do que aquelas cem moedas.
Existem três saídas dessa espiral.
A primeira é reduzir o custo de vida, o que não é tão difícil quando se vive sozinho, mas envolve exaustivas negociações quando não.
A segunda depende de um punhado de sorte: encontrar um dragão tão grande que consiga te manter por um tempo (ou um ninho onde você consiga pegá-los sempre).
A última (e nenhuma das duas anteriores funciona de verdade sem essa) é lembrar que esse gremlim se alimenta de culpa. O problema todo não é exatamente o custo de vida, é quando isso se torna uma questão moral ou existencial. É lembrar que dinheiro não existe, dinheiro é só uma camada de abstração para facilitar relações sociais (ou o domínio de uns sobre outros). O que existe de verdade é casa, comida, abraço, sexo, chutar bola na rua, passeio no parque. Monstros odeiam ar livre.
Esse gremlim ainda é parte de você, e, sendo assim, ele quer o que você quer. E vice-versa. Às vezes você vai ter que encará-lo de frente e dizer que vai treinar sim, e vai escrever poema sim, e tudo isso faz parte de ser quem você é, e que fazer isso é muito melhor do entregar sua cabeça ao reino vizinho.
Money (money)
Que é good nóis num have (have)
Se nóis hevasse, nóis num tava aqui workando
O nosso work é playá