Texto #5 de 40 textos aos 40.
O princípio do bom ancestral nada mais é do que uma visão de longo prazo, resumida naquele ditado, “quem planta tâmaras, não colhe tâmaras”.
Um dos problemas do mundo é visão de curto prazo. Plástico, por exemplo, é uma coisa meio insana se você parar para pensar que produzindo algo “descartável” com um material que demora milênios para se deteriorar.
É o tipo de coisa que, se você parar para pensar demais, não sobrevive no mundo de hoje, que transporta o lixo através do oceano para despejar em outro continente.
Não se resolve problemas sistêmicos com ações individuais, mas, como indivíduo, qual o seu papel nisso tudo?
O bom ancestral é aquele que tenta deixar esse lugar um pouco melhor do que ao entrar. Sou de uma geração que olha para os mais velhos, para as decisões de priorizar o lucro de curto prazo em detrimento de todo um ecossistema, e cara… Não que exista culpa nessas decisões, o sistema as torna inevitáveis. É preciso muita força para nadar contra a corrente.
O diretor da multinacional que numa canetada aprova uma barragem de detritos insuficiente para uma operação de mineração capaz de contaminar um rio por mais de uma geração inteira, talvez pense em si mesmo como um bom ancestral, como alguém que está criando riqueza para os seus.
Por isso, o princípio do bom ancestral precisa acompanhar a expansão da ideia dos “seus”, para ser mais inclusiva, abrangendo não só a sua comunidade humana, mas também a não-humana, nem que seja plantando goiaba que vai dar bicho para atrair passarinho.
É preciso ser capaz de enxergar um futuro de mais amor e menos medo, abrir mão do curto prazo, erguer mais pontes que muros. Uma missão um tanto complicada, ainda mais considerando… tudo isso que está aí.
A ideia de “tentar ser um bom ancestral” é uma daquelas difíceis de argumentar na linguagem, sujeita a réplicas e sofismas. Talvez seja o tipo de coisa que você sente, que você consegue olhar com orgulho.
E, no fim, é coisa simples. É tentar deixar um pouquinho melhor do que encontrou, que só isso já é tão grande…
Nota de rodapé: No Oriente Médio, com pouca água, tamareiras costumavam demorar décadas para frutificar. No Brasil, já descobriram como fazer em cinco ou seis anos.