Texto #9 de 40 textos aos 40
A Via Láctea é uma das músicas mais depressivas da Legião Urbana, e também uma das minhas favoritas. “Queria ser como os outros e rir das desgraças alheias” sempre volta à minha mente na policrise contemporânea.
Só me deixe aqui quieto, isso passa. Amanhã é um outro dia, não é?
Não quero escrever sobre ansiedade climática, mas sempre escrevo sobre isso. Me faria muito bem trocar as palavras para “consciência ambiental”, mas aí fica bonitinho demais. É mais uma sensação de que o ônibus já está rolando ladeira abaixo, o que dá pra fazer agora é organizar como aproveitar melhor os destroços que vão sobrar.
Tal como aprender um truque de mágica, não dá para desver. Ou tentar dobrar um colchão inflável para enfiar na caixa de novo. Você não consegue dobrar a visão de mundo para caber no que é mais cômodo. Quando algo para de fazer sentido pra você, já era.
Até semana passada eu emprestava o carro de meu pai para ir até o centro resolver qualquer coisa. A questão é que eu me sentia meio besta, como se eu tivesse pegando um caminhão de 16 eixos para ir ao supermercado (era só um Ônix). Não faz sentido queimar gasolina para mover 850 kg só para levar esse corpo com nem 1/10 do peso. 90% da energia gasta é só para levar o veículo.
Eu sei, a falta de coerência grita, meu consumo de gasolina para levar as crianças à escola todos os dias é muito maior. Ainda assim.
“Não se pode resolver problemas sistêmicos com decisões individuais” já virou um mantra pra mim. É só que não gosto de me sentir besta, sabe? É a mesma história da carne, quando percebi que todo o sistema de produção de carne não faz sentido, era só questão de tempo para virar vegetariano (ainda levou uns anos).
Uma das melhores coisas que você pode fazer pela sua saúde mental é, aos pouquinhos, tentar adaptar a sua vida às suas crenças. Viver em desacordo com o que você acredita é atalho para burnout.
Comprei uma bicicleta elétrica de segunda mão. Continuo pregando a palavra da bioconstrução, da prioridade ao coletivo, de mudanças que vão muito além do que se pode resolver individualmente.
Quando tudo está perdido, sempre existe um caminho.