Texto #11 de 40 textos aos 40.
“Seja você mesmo” é uma das lições que trago próxima ao peito quando chego aos 40 anos. Uma lição que veio a duras penas, de tudo quanto é lado.
Sim, eu sei, é a moral de onze em cada dez filmes, séries, livros e histórias com bichinhos falantes. Só que não é o que a gente aprende observando o mundo. Aprende a se conformar, a se integrar, a usar as roupas certas, quais palavras dizer, a viver como se espera, até que um dia você está parado na marginal Tietê pensando onde eu vim trazer meu burrico quando o plano era construir uma ecovila na praia com os amigos. Rebeldia é tolerada em doses homeopáticas quando não afetam a vida de ninguém.
Um meio de enxergar o conflito adolescente — e o que não são as nossas crises adultas senão reprises dos mesmos dramas? — é pela matriz”fit in/ stand out” (encaixar / destacar). Todo adolescente tem essa necessidade de demonstrar que pertence à tribo escolhida, mas também se apresentar como um indivíduo único, singular, com algo a acrescentar. É aí que o “seja você mesmo vem com força.”
Não tenho foto da fase emo, mas você pode imaginar.
Toda essa introdução gigante para trazer a segunda parte da lição, que ganhou clareza, mesmo, numa resposta da terapeuta para mim: “mas se você ficar quieto no seu canto, a galera vai achar que você odeia todo mundo”, num papo sobre a dificuldade de fazer amigos. Minha cabeça fez “buuuuum…”, naquele flashback quando tudo passa a fazer sentido. “Seja você mesmo” não funciona sem o “expresse quem você é.”
Trabalhei com uma pessoa incrível, japonesa com fama de brava, que metia medo em metade da agência. Havia nela uma honestidade direta, na lata. Se ela estivesse incomodada com algo que você fez, ela dizia. Eu não tinha que adivinhar o que ela estava pensando de mim, porque ela falava. Isso torna tudo mais fácil.
Queria conseguir ser mais assim, desprogramar os anos e anos varrendo tudo para debaixo do tapete. (Isso porque sou homem, essa questão pega mais ainda para outros gêneros.)
Ser assertivo não é ser agressivo, não é nem mesmo descer do muro, é dizer com todas as letras “eu não sei o que penso sobre isso.” É diferente de não dizer nada, que abre um espaço gigantesco para cada um imaginar o que está em sua mente, e cada um terá uma teoria pior de acordo com os próprios fantasmas.
Já vi famílias se desmantelarem por causa do silêncio da matriarca, às vezes por coisas absolutamente banais, como roupa de cama. Um achava o irmão folgado por usar a roupa de cama da casa, outro considerava falta de respeito a irmã levar a própria roupa de cama, como se as da mãe não fossem boas o suficiente. O silêncio da mãe, que dizia a cada filho o que preferia ouvir, foi alimentando anos de ressentimento. (E isso não é (só) uma metáfora.)
Enfim, ser você mesmo não é suficiente, é preciso também expressar quem você é. Se você gosta de alguém, diga. Se alguém te machucou, diga. Teu amigo deu mancada, diga. Ficou feliz por alguém, diga, compartilhe essa alegria. Tente se tornar aquela pessoa capaz de se expressar, de ter conversas sinceras. (Sim, o discurso é para o espelho — o caminho do artista passa também por aí, de expressar a própria realidade.)
Nas palavras do Detonautas: “Nós vivemos a verdade que reluz do coração. O amor é a única revolução verdadeira.