Rodrigovk
Escritor, faz-tudo, editor e pai

Você precisa de mais amores

Texto #13 de 40 textos aos 40.

Este não é um texto sobre não-monogamia, mas talvez seja?

Tenho percebido que, quanto mais velho eu fico, mais soltas minhas convicções sobre um jeito certo de viver, de relacionar. Enquanto um dos meus valores norteadores fundamentais é a família, acredito em todo tipo de família, em todas as suas configurações, arranjos e possibilidades.

Ok, vivo em uma família mononuclear, mas é um gasto de energia e tanto para manter tudo isso em pé. Se você parar para pensar, faz mais sentido dividir os cuidados com a casa, com o jardim, com as crianças, com as contas, entre mais gente. Ou não, afinal, estar em relacionamento é incomodar e ser incomodado.

E nesse estar em relacionamento entra a ideia de família, pessoas que se amam e se cuidam, sejam elas hétero ou não, cis, trans, mães solo, de sangue ou não, filhos adultos que moram com os pais, monogâmicos ou não, ou qualquer sopa de letrinha que funcione.

Tenho muitos amigos “não-mono”. Ter essa janelinha aberta sempre me fez pensar em possibilidades, ainda que eu viva de um modo bem tradicional.

Neste momento, meus amigos gostariam de me lembrar da relação entre monogamia e patriarcado (monogamia foi consolidada, principalmente para as mulheres, como forma de controle para garantir a legitimidade dos herdeiros).

Também conheço quem diga que toda monogamia é uma forma de controle. Sim, é verdade. Mas viver em sociedade com outros seres humanos sempre envolve um abrir mão de liberdades em prol de um convívio possível. Não existe liberdade absoluta quando se relaciona, e seres humanos são espécie que vive em rebanho.

Toda essa introdução para dizer que você precisa de outros amores. Uma pessoa só não é suficiente para dar conta de toda a sua dimensão emocional.

Você precisa de alguém para beijar. Você precisa de alguém para te fazer companhia no mercado. Alguém para ir para balada. Alguém para beber um vinho à noite, para chorar as pitangas, para caminhar no mato, para dar um rolê de bike, viajar junto, jogar tabuleiro, conversar sobre livros, levar os cachorros para vacinar.

Esperar tudo isso de uma pessoa só é loucura. Algumas pessoas terão sorte de preencher várias caixinhas com alguém especial. Mas não dá pra esperar tudo.

O que nem faz bem! Quando, em uma relação monogâmica, um dos parceiros não tem mais alguém para se apoiar, o peso em cima do outro fica grande demais. Acontece muito quando homens são sozinhos e esperam que a esposa dê conta de todos os papéis: amiga, confidente, terapeuta (e às vezes até mãe). Esse peso destrói a mulher. Destrói o relacionamento.

Amor é chama, e fogo precisa de oxigênio.

Para Esther Perel, todo tesão carrega uma tensão, é preciso que o objeto do tesão seja uma espécie outra, que tenha algo de mistério, o lugar todo mapeado não oferece riscos. Ou seja, é preciso estar no mundo, mudando, se descobrindo, se renovando.

É agora que entra nesse texto um conceito que estava ali na gaveta de propósito: amizade. Existe até aquela piada de que as pessoas estão não-monogâmicas porque é mais fácil encontrar bocas para beijar do que amigos para tomar uma cerveja. Cadê o Tinder de amigo?

Amigo é uma palavrinha desgastada pelas redes sociais, onde significa tanto o cara que frequenta sua casa é teu padrinho de casamento quanto o zé com quem você fez a quinta série e nunca mais viu.

Existem relações não sexuais muito mais íntimas que as primeiras. Existem amizades mais profundas que relacionamentos conjugais. Que palavra usar, senão amores?

Quer dizer que relacionamento virou bagunça? Acho que é bem pelo contrário, acho que relacionamento exige responsabilidade afetiva, entender como nós influenciamos e somos influenciados pelos outros à nossa volta. É tratar o “cuidar” como assunto de primeira importância.

É levar a sério o combinado. Se hoje eu só beijo minha esposa e vice-versa, isso não significa que não tenhamos liberdade para ter outros amores (que, num sentido mais tradicional, a gente chama de amigo). Se eu posso sair numa sexta à noite para jogar jogos de tabuleiro, se ela pode ir no forró com as amigas, isso não muda o nosso combinado, essa configuração que faz mais sentido para a gente hoje.

É aquilo de se chegar ao meio da vida com as convicções mais afrouxadas, e em vez dizer eu sou monogâmico, como se fosse pedra identitária, é dizer eu estou em um relacionamento monogâmico e levo meus combinados a sério. É entender que não se trata de seguir parâmetros rígidos, mas saber que cada pessoa, cada casal, cada conjunto deve encontrar a configuração que faz sentido para si, e ter responsabilidade em relação a si e aos outros.

Como eu disse ali em cima, um amor só não é suficiente. Você precisa de mais amores, mais amigos, mais família, mais pessoas. Porque só dividindo o peso se torna possível carregar a imensa vida emocional alheia com leveza. Amor é coisa linda demais para ficar restrito e não compartilhado.

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