Rodrigovk
Escritor, faz-tudo, editor e pai

Várias vidas, com a mesma pessoa

Texto #14 de 40 textos aos 40.

Este ano esposa e eu celebramos bodas de cristal, quinze anos de casados. Já são mais de vinte de relacionamento, chegamos àquele ponto com mais tempo de vida ao lado dela do que sem.

Há muito parei de associar tempo junto a relacionamentos saudáveis, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Existem relacionamentos tóxicos muito tempo de duração e relacionamentos incríveis também.

Ninguém é a mesma pessoa por quinze anos. Esther Perel (novamente ela) diz que todo mundo vai ter uns quatro ou cinco relacionamentos tipo-casamento na vida. Alguns com a mesma pessoa. Esposa e eu não somos quem éramos lá em 2011. E não existe catalisador maior para mudanças que filhos. (E não existe teste mais paulera do que passar uma pandemia numa casa com cônjuge e filhos.)

Não se chega a esse estágio sem um punhado de crises na bagagem. Estava ouvindo Alexandre Coimbra Amaral, psicólogo, falar num podcast sobre como o consultório está cheio de gente em dúvida se continua casado ou não, se abre o casamento ou não, o FOMO (Fear of Missing Out – Medo de perder), tão comum à geração millennial, finalmente chegou às crises conjugais. Com tanta gente lá fora, eu vou ficar amarrado?

A pessoa ao lado é cheia de defeitos, inconsistências, incongruências e picuinhas que deixa maluco. É humana. Seria desleal compará-la com a versão romantizada que temos sobre os outros, cujas irritações ainda desconhecemos. A grama sempre parece mais verde, a casa dos outros sempre parece mais limpa, o cachorro dos outros não caga todo dia bem no caminho até a porta, e o filho dos outros não grita porque não encontra o tênis na sapateira.

E aí você acha que o problema é o seu relacionamento, a sua vida.

Hoje esposa e eu estamos muito bem juntos, mas só conseguimos superar a última crise quando nos despimos de meias palavras e passamos a conversar honestamente se era o momento de cada um seguir o seu caminho. (Só não fomos para a terapia de casal porque dinheiro é um dos principais pontos que aperta, e terapia é caro). Não foi uma conversa só, foram várias, para trazer à tona medos, inseguranças, desafios, e, principalmente, sonhos. Passávamos por uma crise de ausência de sonhos compartilhados.

Só quando tivemos coragem de olhar o que cada um quer para si, de verdade, ficou claro que a gente queria seguir junto. Nunca faltou amor entre a gente, mesmo se o caminho tivesse se mostrado melhor separados, continuaria havendo amor. Às vezes trilhar junto não é fácil.

O que ferrou de verdade foi a indecisão. Nem sempre vai ser um mar de rosas, mas se a decisão é ficar junto, você tenta consertar. Covardia é deixar morrer. Porque se não está bom pra você, eu te garanto que não está bom pra ela também. Elisama Santos tem um livro ótimo, chamado “Conversas corajosas”, que convida a assumir a responsabilidade de trazer à luz os incômodos, para, juntos decidir a melhor forma de continuar. É sobre comunicação não-violenta, mas é mais sobre relacionamentos.

Relacionamentos longevos podem ser uma experiência inigualável, na qual vocês mudam junto, e se permitem observar as mudanças internas que vêm com as externas, é sobre conhecer outra pessoa, seus humores, desafios e amores, às vezes melhor que você mesmo.

Estamos naquela fase em que muitos de nossos amigos se divorciam, e de repente cada um parece melhor, bonitão, frequentando academia, perseguindo hobbies, se descobrindo, se reinventando. Aí vem aquela comparação, né?

Uma provocação tem sido uma luz interessante em nosso relacionamento: “como se tornar a melhor versão de nós mesmos (ou aquela caricatura do recém divorciado), sem passar pela separação?” É uma pergunta que obriga a olhar para si, a deixar de usar o outro como desculpa para não investir em si mesmo.

Se existe beleza na pluralidade de amores, por que escolher um relacionamento monogâmico? Primeiro, porque existe muito amor no nosso relacionamento, nessa construção, existe um projeto de uma vida compartilhada (na verdade, de 4 vidas compartilhadas). Porque ela me faz um homem melhor a cada dia, porque hoje é o que faz sentido para mim, para ela, para nossa família.

E porque existe beleza na escolha saudável e livre. Eu escolhi viver esse relacionamento, e cada etapa faz com que nós nos conheçamos de maneira cada vez mais íntima. Não existe onde se esconder num casamento desses, você encara sua luz e sua sombra, quando o outro, em toda a sua beleza e complexidade, se torna um espelho.

É como uma boa conversa: não se tem uma conversa profunda em quinze minutos, é preciso tempo, escuta, silêncio. Um casamento duradouro é uma conversa de muitos anos.

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