Texto #16 de 40 textos aos 40.
Sabe, eu queria ter uma opinião sobre diagnósticos de TDAH e autismo, particularmente em crianças. Só que não tenho. Na verdade, tenho um milhão de opiniões contraditórias que se anulam, e chego àquele redondo “não sei” no final.
Eu nem deveria escrever sobre isso, tema espinhoso, grandes chances de eu ofender uma pá de gente. Mas como escritor tem essa mania de meter o nariz em cacho de abelha, vamos lá. Não me leve a sério, eu sou só um rapaz latinoamericano sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes.
Tenho traços de comportamento que meus amigos juram se tratar de TDAH. Ao mesmo tempo, nunca foi um grande problema, passei pela escola sem dificuldade, e não acho que atrapalhou minha vida social mais do que algum constrangimento ou outro. A própria definição de transtorno é o que provoca sofrimento físico ou psíquico.
(Agora entra aquela piada: O neurodivergente, quando vai fazer um teste de diagnóstico, ao responder uma pergunta do tipo “você tem algum problema ao se vestir?”, responde “Isso não é problema algum para mim, porque veja, eu tenho um SISTEMA, as camisetas estão separadas por textura e cor, e as meias são organizadas de tal forma…”)
O que entra de atravessado nesta discussão é o mundo ser cruel. Um sistema que exige que crianças cheias de energia fiquem sentadas quietas, sem espaço para correr, para expandir, para escalar, gritar.
Uma geração inteira está grudada em telas de celulares o tempo todo. Ou, numa frase que ouvi em outro podcast “não é que você tem dificuldade de concentração, é que você tem treinado o seu cérebro para trabalhar em impulsos de 10 segundos o tempo todo. O cérebro aprende o que ele é exposto.”
Qual vantagem em se estar bem-adaptado a esse mundo?
O que não significa que algumas pessoas não precisem se uma atenção especial. A pergunta, muito difícil de responder, é “onde a gente desenha a linha?”
Tenho alunos com diagnóstico de TDAH, e alunos sem diagnóstico, e muitas vezes não vejo diferença nenhuma entre eles.
Vejo em meus filhos comportamentos, manias, gestos, desatenções e hiperfoco que fazer parte de listas de atenção para investigação. Ao mesmo tempo vão bem na escola, têm amigos, são expansivos, esponjinhas de possibilidades de estar no mundo. “Isso é normal, eu era igualzinho quando criança.” Será que sou normal? O que é ser normal?
Se eu tivesse sido diagnosticado quando criança, minha vida seria diferente. Teria me poupado um bocado de sofrimento, “por que eu não me encaixo nesse mundo?” Ao mesmo tempo, esse não é o drama quintessencial do adolescente? O objetivo da adolescência é ser uma peça redonda num mundo quadrado para poder amadurecer, se descobrir, olhar para esse mundo problemático, decidir “não quero isso pra mim”, e escolher um caminho. Não é o mais saudável?
E de novo, quando escrevo sobre adolescência, percebo que a crise dos 40 é igualzinha, só com mais cabeça e mais agência.
Minha primeira terapeuta foi categórica quando perguntei, em determinado momento, se eu tenho TDAH. “Não, não tem. Se quiser, posso indicar alguém para investigar, mas já te adianto o resultado.” Todo mundo ao meu redor achou esse comportamento pouco profissional, mas não era nossa primeira sessão, nós dois sabíamos que estávamos falando de uma muleta.
Ela tinha um estilo provocador, cutucando, me forçava a fugir de respostas fáceis ou assumir o papel de vítima. Funcionou muito bem comigo, fiz grandes avanços, foram passadas gigantes para me entender, perceber de onde vinham comportamentos que me atrasavam.
Um diagnóstico, naquele momento, seria só uma resposta confortável, uma muleta que me levaria ao comodismo. Mas isso é uma constatação particular, entendendo como eu me entendo e me coloco no mundo.
Tenho amigos que receberam um diagnóstico de TDAH ou autismo com alívio, um papel que confirmava o que eles sempre souberam, e a partir disso construíram uma vida mais plena, com atenção às próprias necessidades.
Em relação às crianças, um diagnóstico às vezes é um alívio para pais exaustos que são exigidos demais pela sociedade, sem rede de apoio. Até porque crianças energéticas são desafiadoras e exigem tempo, espaço, expansão. Com ou sem diagnóstico.
Tenho amigos cujas crianças têm autismo, e com isso investem em terapias especializadas e desafios específicos que fazem a criança se desenvolver muito melhor. E tenho amigos cujas crianças têm o mesmo diagnóstico, mas com isso evitam expor a criança a desafios, e a cada ano, ela vai se fechando no próprio mundo.
O que me leva de volta às perguntas iniciais, ao “não sei o que concluir”. É uma daquelas discussões com tantas nuances. Onde o comportamento das famílias às vezes importa mais do que um carimbo de “é isso” ou “é aquilo”, onde o acesso a terapias e ajudas específicas se torna impossível sem o tal carimbo, onde o mundo tem expectativas impossíveis e irreais sobre as crianças (e adultos), onde espera-se que a gente ache normal que existam bilionários no mundo, enquanto tanta gente sequer tem um teto.
No meu caso, em vez de buscar um diagnóstico para mim, meu processo foi de tentar me entender em minhas particularidades, um processo de autodescoberta: Geralmente me sinto ansioso em multidões. Gente demais me deixa exausto. Sei que consigo focar pela manhã, à tarde a mente devaneia. Quando mergulho em um livro esqueço até que estou no mundo, às vezes precisam me chamar várias vezes. A falta de exercício físico me faz muito mal. Interações sociais tendem a me cansar, períodos sozinho me recarregam. Às vezes não sei como agir em público, e cumprimentar pessoas às vezes é esquisito. Não sou de abraçar, mas às vezes sou? Escrever me ajuda muito mais a entender minha mente do que conversar, desenhar ou meditar.
Conhecer mais intimamente minhas próprias idiossincrasias me ajuda a construir uma vida mais plena, mais adaptada a quem sou. No fim, o objetivo é esse.