Texto #20 de 40 textos aos 40.
Quando criança, uma coisa não entrava na minha cabeça: como é que os bichos cagando em tudo quanto é lugar não é problema ecológico? (Isso depois de aprender sobre tratamento de esgoto, sobre os problemas das cidades que não tinham esse controle na Idade Média e tudo o mais).
A resposta é simples, eu sei, mas talvez eu seja um pouco lento para pegar as coisas: existe ali no ambiente uma quantidade de insetos e microorganismos que consegue dar conta de certa quantidade de material orgânico: equilíbrio. Aumente muito esse material, e uma das duas coisas acontece: ou o material não dá conta de ser absorvido e acumula, ou isso também vai gerar um aumento explosivo de microorganismos, provocando outros problemas em cadeia.
Essa biologia da sexta série explica o mundo.
A começar com o paradoxo da pecuária, seja a pecuária industrial (muitos animais confinados em um espaço muito pequeno, criando ambientes insalubres), ou extensiva (que requer grandes áreas de pasto, muitas vezes em áreas desmatadas): “Se a humanidade consome leite e carne há milhares de anos, por que agora isso seria um problema?”
Escala. Primeiro, que havia menos humanos no planeta; e segundo, que esses animais eram criados em pequenas propriedades, ou caçados, em quantidades e sistemas que mais ou menos funcionavam. Se você caça alguns alces para alimentar uma aldeia inteira, logo nascem alguns alces a mais. Quando você começa a escalar demais, o ecossistema não dá conta. (Não que a humanidade não tenha provocado algumas extinções mesmo antes da revolução industrial).
Aliás, o termo “agro” ou “agroindústria” tem um problema de escala: é meio estúpido usar o mesmo termo para centenas de hectares de monocultura de soja ou milho no centro-oeste, para multinacionais como Bayer ou Sygenta, e para uma pequena propriedade produzindo café em modelo regenerativo. Inclusive, o marketing político finge agradar pequeno produtor com ações, na verdade, pensadas para empresas milionárias.
Continuando na toada do texto anterior, um dos problemas do capitalismo é escala: o próprio modelo não tem teto, e beneficia projetos cada vez maiores e mais globais. O resultado é o monopólio vertical, que direciona os frutos para poucos. Um modelo mais saudável seria, em vez de uma grande multinacional, várias pequenas empresas em cada uma das etapas (o que promoveria livre concorrência, olha que coisa!) Se cada uma dessas muitas pequenas empresas tivesse o capital distribuído entre seus trabalhadores, que delícia.
Sempre que me bate a ansiedade climática, eu volto ao mantra “não se resolve problemas sistêmicos com ações individuais”, que nada mais é que um retorno ao pensamento em escala.
Nós começamos a Internet com um modelo distributivo, uma rede descentralizada baseada em protocolos abertos, e chegamos às redes sociais que seguem o modelo “vencedor leva tudo”, nas quais poucos conseguem furar a bolha, e cujos algoritmos empurram aqueles com mais visibilidade; o de cima sobe, o de baixo desce, xibombombom.
Se você parar pra pensar, não faz sentido um show da Shakira numa praia que quem tá lá atrás não consegue nem ver o palco, onde a área da frente está dividida entre vipão, vip e vipinho. Um punhado de trio elétrico com meia dúzia de banda tocando o Carnaval parece uma escala mais humana.
Até os esportes estão com problemas de escala, futebol se tornou aquela mania bizarra de assistir a vinte e dois milionários chutando uma bolinha. (E sim, para manter a falta de coerência, estou assistindo à Copa e me divertindo bastante.)
Preciso nem dizer que aquecimento global é problema de escala. E que agora só resolve com escala. Mas a gente podia aprender alguma coisa e, em vez de investir em modelos centralizados, como usinas solares megalomaníacas, por que não cada cidade ou região com sua usininha em sistemas interligados?
Até projetos de sustentabilidade deixam de ser se pensados fora de escala. Construir uma casinha usando madeira? Interessante… Um projeto gigantesco que vai requerer uma floresta inteira? Hum….
Esse não é um texto com uma proposta de solução, é apenas uma das principais lentes pela qual enxergo o mundo: quando nos distanciamos demais da escala humana, criamos sistemas mais complexos, com pontos críticos de falha, e de impacto maior. (Capitalismo ama escala quase tanto quanto um monopólio.) Quando nos aproximamos da escala humana, estamos falando em sistemas resilientes, com pontos de falha distribuídos, redundância, e também distributivos (os frutos do trabalho ficam mais próximos à comunidade onde é realizado.)
Na prática, isso quer dizer que os sistemas que a gente precisa já existem, o que precisaria mudar é o pensamento, o jeito de fazer as coisas, ou, em última análise, os incentivos.