Texto #21 de 40 textos aos 40.
Adam Savage, sobre ser um “maker” (ou fazedor, palavra interessante que vale para uma infinidade de carreiras que envolvem fazer coisas com as mãos): “no começo da carreira, os materiais são caros e as horas são baratas. Quanto mais você avança, mais essa situação se inverte: materiais se tornam baratos e as horas mais preciosas.”
É por isso que marceneiro avançado geralmente usa um milhão de gabaritos e encaixes prontos, e peças mais caras que poupam um tempão. E talvez os iniciantes sejam forçados a ser mais criativos. Se você tem tempo e pouco dinheiro, faz com o que tem.
Se você esticar a metáfora, chega no mestre: aquele que já passou pelas duas etapas, e agora tem tempo para brincar e inventar, e pouca restrição de material. E aí ele vai fazer o quê: elaborar um banquinho de cinco pés usando somente galhos de goiabeira.
Inventar limites. Quando não vêm de fora, podem vir de dentro.
Conheço um cara interessante aqui de Jaguariúna, o Isquisito, que faz peças usando somente madeira de demolição, que ganha ou encontra em caçambas por aí. O resultado é sempre mais interessante (embora mais trabalhoso.)
Pensava nisso porque também adoro fazer coisas com madeira de demolição, com sucata, com peças reaproveitadas. Isso está na filosofia do Espaço Kabouter. Mas é algo a que sempre preciso voltar, porque o caminho mais fácil (e rápido) é comprar material.
Tem pouca coisa que eu goste mais do que uma bela placa de compensado naval, uma página em branco para inventar. Mas se eu não tomar cuidado, vou acabar sempre comprando material em vez de rachar a cuca para fazer com o que eu tenho aqui.
Limites sempre vão tornar o trabalho mais local, mais particular, e mais sustentável também.
Por exemplo, o portão do espaço ou as luminárias, dois projetos que fiz que me encheram de orgulho. Partiram da vontade de fazer algo belo com pouco material (no caso, compensado naval de 4mm). Ah, mas compensado não é madeira de verdade. Não, mas é mais sustentável, gera menos perda.
Esses dias a luz que fica em cima da pia de casa queimou. É uma lâmpada pendurada nos fios elétricos, uma gambiarra provisória que já tem 6 anos. Decidi que era hora de criar vergonha na cara e fazer a luminária que eu queria para aquele espaço. O projeto original na cabeça previa a compra de uma peça. Decidi não comprar, e alterar o projeto para usar algo que já tenho. Vai ficar mais diferente, talvez mais bonito, talvez mais feio. Com certeza mais único.
Mas talvez valha até questionar o que é belo, pra que serve? Será que uma sala bonita é aquela padrão Instagram, sofá creme, lâmpada Emerson gigante no cantinho, uma planta de plástico em cima da mesa no vaso moderninho?
Conversava sobre a esposa sobre como as imagens de divulgação de eventos estão todas iguais, feitas por IA. O pôster da banda que vai tocar num bar da cidade, de um amigo que vende foccacia e da conhecida que vende sabonetes parece ter saído da mesma forma: se você borrar as informações vai parecer tudo da mesma empresa. Os cartazes do Espaço Kabouter eu nem acho tão bonitos, mas eu tento desenvolver um estilo próprio, mesmo que seja um “é feio, mas é meu”.
E isso vale para a escrita também, estou aqui martelando o teclado do notebook em vez de pedir para a IA escrever esse texto, porque sim, tem passado uns errinhos de gramática que me envergonham, é feio mas é meu. (E porque, na verdade, escrevo essas coisas mais como autoinvestigação do que para vocês, desculpa sociedade.)
Limites. Para escrever isso eu tenho um limite de tempo, um limite de cansaço. Para fazer os cartazes do Espaço Kabouter eu tenho um limite de capacidade técnica. Para executar meus projetos de marcenaria eu tenho um limite de ferramental disponível, de material.
Se poesia é a arte dos limites, refletir sobre os limites, ou até inventá-los, torna o trabalho mais poético. E o que hoje você chama de limites, uma hora se torna o seu estilo.