(Texto #33 de 40 textos aos 40)
Sabe quando o universo te manda dicas, de formas sutis, ou diretas, até o ponto que só falta um grande letreiro cercado de luzinhas coloridas piscando: “Desiste, Rodrigo!”?
Não. Insisto. Dou com a cara da parede de novo, de novo, e de novo, como um trouxa tentando atravessar a plataforma nove e meio. Essa é hoje minha relação com a literatura.
O que pode soar estranho, já que metade dessa newsletter me conheceu como o editor da Revista Trasgo de ficção científica e fantasia, ou como o autor do blog “Viver da Escrita”, que explorava o mundo do fazer literário como meio de vida, direta ou indiretamente. Só que o bonde passa, coisas (não) acontecem.
Bienal do Livro, eu não queria ir. Mesmo tendo muitas amigas escritoras, todo mundo estava lá. Eu podia ter escolhido qualquer dia e teria encontrado um monte de gente bacana.
Mas o sentimento era o de ser convidado a um reencontro da turma de faculdade, e saber que todo mundo virou alguém importante, e você é aquele que nunca deu certo. Sim, é sentimento mimimi-de-homem-branco, porque parte do pressuposto que você deveria ter conseguido. É o sentimento de estar jogando a vida no modo fácil, e nem assim conseguindo passar de fase.
A literatura de gênero brasileira está num momento incrível, várias brasileiras entre as mais vendidas em editoras grandes, amigas lançando livros maravilhosos, e, sabe, dá um baita orgulho ter feito parte dessa bagunça alguns anos atrás.
Às vezes penso que tem a ver com os caminhos que escolhi na vida, trilhei por caminhos mais tradicionais de família-trabalho-morar-no-interior, mas algumas escritoras incríveis dessa leva também são mães, e trabalham, e também têm empregos e casas e famílias e etc.
Talvez eu tenha perdido o timing. Não é como se eu não tivesse tentando escrever, eu tenho alguns livros escritos, mas nenhum bom o suficiente para quebrar a barreira e chegar a algum lugar. Um deles até foi adquirido por editoras bacanas, mas falhou por tecnicalidades, como um livro destinado a um público infantil que era apenas digital, quase ninguém leu. Outro que foi escrito para minhas crianças, mas elas foram as únicas pessoas que leram (também, porque foram obrigadas a me ouvir contar.)
Quando um mesmo livro passa por três editoras diferentes, com três encerramentos de contrato sem “virar nada”, eu deveria conseguir ler as entrelinhas, fechar a conta e tentar fazer outra coisa.
E estou tentando fazer outra coisa. Mas esse é um osso que não consigo largar.
É diferente da música. Já quis ser músico, faculdade de música era uma de minhas opções, mas meus pais (com razão) me convenceram que não era pra mim. Ainda amo música, ainda tento aprender piano de vez em quando, mas essa é uma área que está firmemente ancorada na categoria “hobby, diversão, nada sério”.
E já tentei encarar a literatura como algo assim: um hobby, uma peculiaridade. Só que lá no oco do peito tem um grilo falante “seu momento ainda vai chegar”.
Quer coisa mais crise dos 40 essa coisa de “preciso viver da minha arte?” Essa crise tem a especificidade de vir quando você já pisou chão o suficiente para se perguntar “o que cabe na sua vida?”
Por isso muita gente divorcia. Muda de emprego, carreira, país, perfil de rede social. A geração millenial não é a da crise do carro esporte e amante de 25 anos, é a geração do “já deu, vou cortar tudo isso que eu só faço porque alguém lá atrás me convenceu que era isso que eu deveria querer.”
Daqui vejo o letreiro piscando, luzes amarelas e azuis e vermelhas, “Desiste, Rodrigo!”, e olha, talvez eu fosse mais feliz se conseguisse parar com essa coisa de tentar ser escritor, de tentar sem alguém na internet, de gastar uma hora da minha sexta-feira escrevendo uma newsletter que só vai fazer pouco mais de mil pessoas me acharem trouxa. Um trouxa batendo a cara na parede da estação nove e meio.
Mas, enfim: esse é um osso que eu não consigo largar.
(Agora, um final escrito uma semana depois do texto original):
Esses dias expirou o domínio http://trasgo.com.br, minha intenção não era renovar. Mas bateu um siricutico, renovei. O site continuar no ar.
Na real, eu enxergo a vida como ondas. Já estive envolvido com a literatura de FFC, com a nova geração de escritores quando publiquei a Trasgo, por sete anos. Já escrevi mais, aí a vida me deu um caldo. Vieram as crianças. O problema do autoemprego é que toda vez que escrevo, sinto que meu patrão está olhando feio por cima do meu ombro.
Às vezes acho que estou na fase cuidar das crianças, viver a vida, colocar o Espaço Kabouter de pé. Nesse momento da minha vida, talvez a literatura não caiba. Mas crianças crescem, adolescentes adoram fingir que você nem existe, negócios entram em fases mais estáveis com rotinas mais previsíveis. Em algum momento, eu sei que vai vir aquela coceira, eu preciso escrever um livro novo, ou um conto, ou alguma coisa, e, quem sabe, alguma coisa acontece.
Afinal, ainda virá a crise dos 50 para eu resolver que preciso viver da minha arte.