Rodrigovk
Escritor, faz-tudo, editor e pai

Cerebrando demais sobre delegar

Texto #17 de 40 textos aos 40.

Estou naquela fase do negócio em que cogito contratar meu primeiro funcionário. Ainda estou fazendo as contas para ver se isso cabe no orçamento ou não, mas venho pensando também na parte filosófica de terceirizar o trabalho.

Existe um valor em varrer o chão todo dia, e me remeto à imagem do mestre Zen limpando o templo. É sobre estar no mundo, sobre a energia que você investe, mas há também um sentido mais prático de observar com a mente livre, enxergar melhorias, seja um ajuste na janela, uma decoração que você sente que falta ali, um óleo que está faltando na dobradiça da porta.

Meus pais tinham duas estufas no sítio. Uma delas ficava no caminho entre a casa deles e o escritório, local onde passavam todos os dias. A outra, um pouco mais adiante. Era visível a diferença entre as plantas na estufa onde passavam todos os dias. Vários pequenos ajustes a cada dia fazem milagre.

Meu amigo Narayan, quando elogiei sua horta, respondeu: “horta não é difícil, é só um pouquinho de amor todo dia.” Tenho dificuldade com esse “todo dia”, e minha horta sempre vira um matagal, não consigo tirar o mato no comecinho. Tenho tentando trabalhar isso aqui no Espaço Kabouter, essa filosofia do “um pouquinho todo dia”, seja guardando as ferramentas no lugar ou reorganizando os parafusos, seja investindo nas melhorias grandes, como o portão, ou as janelas.

Contratar alguém significa passar menos tempo em cada detalhe, mas também significa mais energia para fazer os avanços necessários. Em vez de varrer o chão, vou poder construir as portas, a escada, as luminárias externas, que estão na lista.

Em última instância, acredito que grande parte dos problemas do mundo hoje (ou os problemas do capitalismo) decorrem diretamente da distância entre o andar de cima e de baixo. Não existe mais o orgulho de trabalhar junto para construir algo, vamos terceirizar o máximo, deixar o trabalho para algum país distante, apertar ao máximo para dar aos acionistas 0,3% a mais de lucro esse trimestre (o resmungo sobre a financeirização de tudo vai vir ainda em outro artigo.)

Eu sei, contratar alguém não é um afastamento automático da energia que você investe. Até porque você pode continuar varrendo o chão, mesmo com ajuda para fazer isso, e isso tende a melhorar as coisas. Não se evolui um espaço como esses só com manutenção, é preciso construir também, e isso exige mais mãos, mais tempo livre para a cabeça.

Às vezes sou besta de pensar em tanta filosofia numa decisão que, em última instância, é financeira. Mas acho que tem a ver com construir um negócio que eu possa me orgulhar, com a minha cara.

O diretor de uma agência onde trabalhei tinha um café. Ele visitava uma vez por mês, mais ou menos, tinha equipe para tudo: administração, chef, baristas. Era dono só por papel passado, não participava do dia a dia. Analisando apenas em termos econômicos, um ótimo negócio, uma renda passiva. Mas não sei. Não acho que exista algo de errado neste exemplo específico, mas se você escalar a metáfora, é o que temos no capitalismo, milhares de donos sem qualquer envolvimento real, só servem para extrair parte do lucro. Sim, eu sei que comparo coisas diferentes, escala é uma das coisas que mais importam.

Enfim, olha eu falando de capitalismo de novo, puxa vida. É a sina de agora fazer parte do clube dos empreendedores, dos proprietários de um negócio? Sim, eu sei que é assim que é o mundo, assim que a roda gira. Mas não abri um negócio para ficar rico, abri o negócio que eu queria ver no mundo, que eu sinto que eu consigo fazer alguma diferença. Seja a mudança, né?

No fim, acho que esse tipo de exercício é direcionar o negócio para onde eu quero que vá, em vez de deixar o caminho mais fácil, ou o do lucro, assumir o volante.

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