(Texto #34 de 40 textos aos 40)
“O futuro é um país estrangeiro” é uma ficção de Anna Martino, inspirada na frase original de L.P Hartley (O passado é um país estrangeiro, lá as coisas são feitas de maneira diferente).
Curioso, lembrava de tê-lo lido, mas quando fui procurar, descobri que saiu na Trasgo, está até online, na edição 12, editada por Aline Valek, só com mulheres. Enfim, é um conto lindo, e não à toa, o título sempre me vem à mente quando penso no futuro.
“Ciência é magia com explicação plausível. Pense em como seus avós veem o seu smartphone, seu computador, mesmo as ligações internacionais sem telefonista e sem um cabo ligando o aparelho na parede. Caramba, pense no absurdo que é um telegrama, se você não entende de cabos submarinos e código Morse — não parece magia negra?“
Tenho dificuldade com o futuro próximo. O futuro me traz imagens solarpunk: agricultura regenerativa, comunidades com soberania alimentar e energética, abundância de energia limpa, um mundo ao mesmo tempo mais descentralizado e mais conectado em rede. É minha utopia.
Embora eu acredite nesse futuro e trabalhe por ele, a curto prazo sou pessimista. Já chamei de [ansiedade climática](A via lactea link), talvez seja realismo. A gente está vivendo num mundo em aquecimento, com o clima se tornando mais intenso e instável. Mas muito além do clima, a gente vive um sistema econômico que se recusa a enxergar que a Terra tem limites, baseado em crescimento infinito, em “externalidades” (como odeio essa palavra). Não me entra na cabeça como é que em 2026 ainda tem gente com pensamento extrativista, ainda querendo lucrar com a destruição.
Mas esse não é um texto sobre o presente, mas uma visão de futuro. Se planto um punhado de árvores hoje, acredito que vamos precisar da sombra daqui a trinta, quarenta anos. É pouco, mas é o que dá pra fazer agora.
Acho que a gente vai chegar em um lugar melhor. O mundo de “O Monge e o Robô“, de Becky Chambers, é um mundo de alta tecnologia, mas também muito verde. Tem problemas, claro, mas isso é a condição de estar vivo. Em determinado momento, o monge diz para o robô algo na linha “a gente não é perfeito, fez muita coisa errada, mas eu queria que você enxergasse o quanto a gente caminhou, o quanto o mundo está melhor.”
Em Walkaway, do Cory Doctorow, você tem um mundo dividido entre os ultrarricos (e uma sociedade que existe para servi-los) e os “walkaway”, uma galera que decidiu viver fora do sistema, que adotou a ideia do código livre, da vida livre, do desapego total à propriedade privada, porque “sempre dá pra construir de novo”. É um livro onde tudo dá errado das piores formas possíveis, e que, no fundo, achei otimista.
Às vezes pareço utópico, mas acho mesmo é que a gente vai pro buraco. Vamos passar por uma transição horrível, quando o capitalismo (por meio das figuras detentoras do capital – os bilionários e cabeças-ocas-extrativistas) vai fazer de tudo para manter o poder e tentar a implementação do tecnofeudalismo, que já está em curso. Como uma besta sufocada, vai se debater e destruir e machucar demais antes de dar lugar a qualquer sistema mais são.
(De novo, para quem chegou agora na conversa do anticapitalismo: comércio, dinheiro e propriedade antecedem o Capitalismo, esse não é o único modo de ligar com esses conceitos.)
Por fim, me agarro ao que ouvi no podcast Team Human, mas acho que a frase não é do Douglas Rushcoff: as mesmas coisas que a gente precisaria fazer para reconstruir um mundo após o colapso é o que podemos fazer agora para preveni-lo. (Comunidades, agricultura regenerativa, comércio local, autonomia energética).
A tristeza é pensar que não precisava ser assim. Nos meus 40 anos, me pergunto se vou fazer 80 já enxergando as escoras de um novo sistema. As sementes já existem, e são muitas: comunidades e espaços com um clima diferente, onde dinheiro não é o que mais importa.
“O futuro é um país estrangeiro, meu pai; eles fazem as coisas diferentes por lá. Mas nem por isso a gente deixa de fazer as malas e partir, não é mesmo? Não é mesmo?”